A vida dos Outros

Mesmo tendo perdido o emprego há muito tempo saia de casa todos os dias com seu head-phone e ficava dançando soul-music no parapeito das pontes.
Saia de casa porque não queria que sua mulher notasse que agora era um desocupado.
Ana achava que uma das fraquezas do homem é não ter objetivos na vida, ele dançava no parapeito das pontes achando que levava alegria aos corações dos outros. Sua Mulher era uma mulher toda rija, baixinha e muito magra, era quase bonita, não fosse pela hirteza de sua expressão um pouco dura demais para uma mulher tão pequena, as sobrancelhas grossas e sempre semi cerradas no rosto ovalado mais fino embaixo, começava com os cabelos lisos castanho escuros e muito finos que iam até as orelhas, tinha olhos também castanhos e arredondados.
Ana resolveu abandoná-lo quando o viu dançando numa passarela, Sexual Healing, do Marvin Gaye era o que ele dançava. Não pensava nela naquela hora, ela parou um tempo lhe olhando, ele percebeu e ficou com vergonha, se olharam, ela não se preocupou em limpar uma lágrima e foi embora com passinhos curtos e rápidos, os cabelos balançavam para o lado oposto dos quadris de nádegas apertadas enquanto sumia. Acreditava estar levando alegria aos corações dançando assim, no entanto a maioria não se permitia alegrar, vomitava nele deboche, outros apenas odiavam sem entender.
Um dia ficou triste porque as rádios não tocavam mais soul music. Ia pular da passarela em frente à rodoviária, a mesma onde tinha visto Ana pela última vez, cabeça estraçalhada no pára-brisa do intermunicipal. O head-phone estatelou no asfalto antes dele, que ficou olhando a queda lá do parapeito estreito, lhe pareceu muito sem sentido pular lá de cima, achou inútil dar fim a sua vida, a pior forma de terminar uma história é antecipar o fim matando o personagem. Vivo, se tem mais chances de que algo aconteça, pensou. Seus ouvidos estavam se enchendo de música, o rádio estatelado se reduzia a pedaços cada vez menores sempre que algum carro passava por cima dos cacos e ele se sentiu feliz por não estar lá embaixo. Dançou mais uma vez no parapeito, mostrou seus melhores passos, seus movimentos mais sensuais suingando com a cintura prum lado e o tronco pro outro. No final daquela tarde notou que um casal que vinha caminhando parou para lhe olhar, ele seguiu dançando, controlando com o canto do olho, eles deram as mãos cruzaram o olhar e se beijaram abraçados, pareceram dançar um pouco também. Deu-lhe saudade da Ana, lembrou da época em que namoravam, lembrou da festa de casamento, das noites em que não liam, não ouviam música, não faziam nada além de se abraçar e foder com cobertores por cima quando estava frio ou embaixo do chuveiro frio no verão quente e úmido.
Aquele casal o havia visto! Tinha tocado duas pessoas, transformado o dia delas, a atenção que os dois dedicaram para ele, o beijo que trocaram também tiveram seus efeitos, eles também dançaram para ele, desceu do parapeito e caminhou pela passarela, pelo meio das pessoas, no centro da cidade, seguiu caminhando até a casa onde um dia morou com Ana.
A casa continuava lá, as luzes estavam acesas, Ana estava na sala, lendo perto da janela, ele não tocou na campainha, ficou apenas parado no portão, olhando para Ana que bebia um chá, lia e comia um chocolate aos pouquinhos. As vezes coçava a orelha, as vezes soltava o livro para esfregar as duas mãos, uma contra a outra rapidinho, como quem quer esquentar as palmas, daí comia um quadradinho do chocolate e depois tomava outro gole de chá. Ana costumava fazer isto com as mãos quando estava com frio ou quando se excitava com alguma coisa. Ele ficou por muito tempo lá olhando e as vezes secando alguma lágrima que escorria enquanto esperava que algo acontecesse.
Eles nunca tinham conversado sobre o final da sua vida juntos, ela nunca lhe falou o que sofria vendo seu amor se afastar e se fechar numa fantasia de dar amor aos quatro ventos sem olhar para si e para ela que tanto precisava de carinho, sua companheira, seu amor abandonado por uma ilusão de um amor universal. Ele nunca tinha entendido também que era concentrando nela que ele conseguiria espalhar para o mundo o que desejava. Agora isto era muito claro.
Ficou ali no portão até que ela o visse, se olharam um tempo pelo vidro, ela compreendeu do que se tratava, abriu a porta e caminhou até a varanda, demonstrando que ele deveria entrar e que era bem vindo. De dentro da casa vinha uma música de Marvin Gaye, ela lhe estendeu a mão tirando-o para dançar, ela conduziu os passos, ele se deixou sentir feliz, do outro lado da rua um casal parara de discutir para vê-los dançando, dançavam uma dança nova, dançaram ainda por muito tempo, as vezes resgatando algum passo antigo, as vezes deixando de fazer alguns que não haviam funcionado e ah! que felicidade ficavam quando inventavam algum passo novo. E isso sempre passava como uma benção para os que tinham a sorte de assistir.

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Tom

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07 2010

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  1. 1

    Olá!

    História interessante. Cheguei a visualizar o cara dançando e até senti um princípio de pena.
    Li que um cara te perguntou sobre discos voadores…???
    Eu te pergunto: alguma vez já avistou alguma borboleta verde?

  2. Tom #
    2

    Obrigado por ler e pelo comentário. :)
    Este lance de discos voadores é comum, volta e meia tenho que responder um n00b que não se dá ao trabalho de olhar o site e ver que não tem nada sobre ufos aqui.
    Putz, borboleta verde. Nunca vi não. fiquei até na dúvida se existe agora. Pronto, lá vou eu pro google.
    []s



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