Satisfação
É difícil de lembrar da ordem de alguns acontecimentos.
Ela gritou e ele atirou? A batida seca e depois a travada? Ou teria sido ao contrário?
Era difícil pra ele saber se havia pensado algo e por isto tal coisa estava acontecendo novamente ou se sempre que isto acontecia liberava o processo torrencial de pensamentos aparentemente desconexos, mas totalmente encadeados que agora ejaculavam de fora pra dentro da cabeça dele.
Expectativa e temor –Os pensamentos têm um barulho estranho, em várias camadas de sonoridade. Tente imaginar o barulho que tem os fenômenos e as coisas que existem. O barulho de uma rocha, ali, só existindo. O barulho daquela parte que fica bem no meio das coisas, o cerne de uma montanha, o barulho dos uns e zeros.
Aquele barulhão que fazem os estetoscópios, o repercussor de um estetoscópio prensado entre a parte interna do cotovelo e o estignamômetro, o estrondo do sangue ali passando. Sangue surdo e estrondoso.
É assim que a expectativa soa enquanto ele sua.
Em pequenas províncias, costuma acontecer de artistas não terem seu trabalho devidamente reconhecido pelos conterrâneos que apenas o reconhecem como pessoa física. Justamente por isso.
Guitarristas virtuose, não passam de pudlles amestrados. Imagino que a cabeça lhes doa enquanto tentam desesperadamente encaixar suas circenses evoluções de notas, música tem que ter mulher cantando deprimida ou emocionada e homem cantando brabo tem que ter refrão pode até ter solo, mas a gente não pode notar.
A professora do pré primário, a maldita tia da escolinha uma vez o repreendeu porque ele demorou muito pra lavar o rosto, cadela intrometida.
Porque os infelizes dos cobradores de ônibus fazem aquela cara e empurram a roleta enquanto a gente está passando? Se eu fosse taxista perguntaria se a pessoa quer ouvir a estação de rádio que eu estou ouvindo ao invés de aumentar o volume depois de saber do itinerário. Porque em alguns ônibus tem um balde de água com uma esponja dentro?
Até aqui é o que passa na cabeça dele a partir do exato momento em que ela começa e termina de lhe dizer o preço, menos de um segundo.
Estes pensamentos não são sempre nesta ordem, nem desta forma linear, eles explodem em forma de golfada, é como uma orquestra completa, cada um dos instrumentos com seu timbre perfeitamente audível e distinto, todos tocando juntos, sem partitura, sem harmonia, sem nada além do vibrar, soprar e bater quase erótico dos pensamentos.
Ele tira a carteira do bolso, as mãos tremem um pouco, um movimento da mandíbula pode ser notado, como se algo fosse repuxado atrás das orelhas e uma gota começa a escorrer da testa já meio reluzente de suor gordurento e nervoso de pura expectativa pelo prazer final.
Ele não tem, com clareza, os sentidos despertos enquanto conta o dinheiro para pagar a moça, grandes olhos, os cabelos bem cuidados, os cílios aumentados pela maquiagem, um sorriso fácil e aquele sorriso de falsa intimidade e carinho comprado. Ainda bem que ganha dinheiro suficiente para pagar por estas coisas.
Entrega o dinheiro com o resto do mundo inteiro desfocado, já nem lhe interessa mais manter a pose ou a cara de pessoa normal, o queixo cai um pouco entreabrindo os lábios e colocando a mostra a língua que agora exposta faria qualquer um pensar que não cabe naquela boca, o brilho da saliva quase pingando transforma o conjunto de dois lábios, os dentes e a língua num espetáculo meio patético, coroado pelos olhos estalados, fixos e secos, literalmente comendo aquele momento.
Ao soltar as notas enquanto a moça as pega, conta e põe na gaveta ele quase desmaia, estende a mão para pegar a sacola enquanto ela diz o que ele está ali para ouvir:
- o senhor encontrou tudo o que queria?
-Sss-ii- sziimm – é o que ele consegue dizer enquanto os olhos reviram, um suave tremor lhe percorre a espinha e ele sente a mancha quente e úmida se espalhar pelas coxas.
Enquanto ela assina com chave de ouro em um grand finale para ele:
- obrigado por escolher nossa loja senhor, tenha uma boa noite. E mudando a expressão já com o olhar na pessoa atrás dele que acaba de se materializar juntamente com o resto do mundo
- boa noite, pode passar aqui senhora…
Mesmo usando calças folgadas e escuras as vezes dá pra notar a mancha quando ele deixa uma loja de departamentos, feliz, satisfeito, com uma sacola grande cheia de roupas numa mão enquanto a outra apalpa o bolso do casaco surrado em busca de um cigarro.




