Em Casa
As sensações estavam aqui de novo, como se estivesse acordando, como se o telefone tivesse tocado no meio do sono. O telefone não pode ser, foi o que lhe disse uma primeira sinapse. Há mais de dez anos havia parado de atender ao telefone, há uns cinco ele já não tocava, nunca teve nem a curiosidade de levantar o fone do gancho e encostar o ouvido no auricular para ver se fazia tuuuuuuuuuuuuuu, ou tu… tu… tu… tu… Não havia se imposto um isolamento. Foi natural. No início apenas reparou que comia cada vez menos do sanduíche de ovo com maionese que levava para o almoço. Sobrava cada vez um pedaço maior para colocar na lixeira e isso o deprimia um pouco. Chegava em casa e sentava na frente da televisão e ali ficava até a manhã seguinte, sem ver nem ouvir nada.
Pela manhã era dolorido para os joelhos se desdobrarem e carregar o seu corpo, para onde as obrigações o mandavam. No final, são os joelhos que carregam o corpo. Ia até a cozinha e fazia um sanduíche de ovo com maionese. Dobrava e desdobrava os joelhos, colocando um pé na frente do outro até a fábrica. Ou seria loja? Ou repartição? Não faz diferença o lugar onde ele trabalhava. Numa manhã não tinha ovo, noutra havia acabado o pão. Foi melhor, não precisou mais carregar a marmita. Teve um outro dia em que apareceu um vulto no seu cubículo, ele deve ter falado alguma coisa, ficou um tempo na sua frente mexendo a boca e baixando os olhos e subindo os olhos e virando para a direita e virando para a esquerda, fugindo do seu olhar. Que se fodesse, pensou, não tinha nem coragem para lhe demitir olhando nos olhos, pelo menos parecia estar lhe demitindo. Não se importou muito, levantou e foi pra casa sentar na frente da televisão sem se importar se havia ligado ou não, nem tomou o cuidado de deixar o controle remoto por perto, sentou e assistiu as unhas crescerem. A luz da sala apagou sozinha um dia, nunca mais acendeu. Foi melhor, podia perceber os dias indo e vindo no vaivém de luz e sombras que transluzia pela janela como se fosse o ponteiro de segundos do relógio que não tinha. Isso também terminou. Uma franja cresceu sobre seus olhos até tudo ficar escuro, a barba e o cabelo tomaram conta de tal forma que pareceria uma cadeia de montanhas ambulante, isto caso ambulasse para algum lugar. Como não iria, não ambulava. Pareceu montanha por pouco tempo, ou muito, impossível de avaliar, uma época os cabelos começaram a cair, aos poucos a luz voltava aos seus olhos, e ele os mantinha fixos na janela, não estava contando o tempo, nem reparava na sua imagem refletida no canto da vidraça encardida. Se o fizesse, poderia se ver praticamente fundido com a poltrona. As suas roupas, que já eram velhas quando ainda era jovem, agora não passavam de farrapos, tiras soltas num corpo largado, unhas de enormes espirais esverdeadas com lindas texturas de couve-flor escorriam soltas na poltrona. Não reparava também nos insetos, ratos e outros pequenos seres, havia se tornado uma colônia careca de fungos que se alimentavam dele, se alimentavam nele, dos seus dejetos e deviam terminar o alimentando, alimentavam a sua existência. Era bom. O nome disso é mutualismo, ou simbiose, é sempre bom para todos os envolvidos. Na janela, a cada segundo, amanhecia e vinha a tarde, anoitecia e depois acontecia tudo de novo. O sol ficava mais oblíquo, mais a pino, as vezes relâmpagos trovejavam raios. Não importa. Agora chegamos ao início, algo o despertou, lembram?
Um buldozer amarelo passou pela janela, ouviu vozes de homens lá fora, como há muito tempo não ocorria pensar em coisa alguma não entendeu nada, mas nunca foi burro, não demorou muito para entender que falavam de um cruzamento, uma rodovia que deveria passar por cima da sua casa. Iriam demolir a casa que lhe envolvia, iriam quebrar a sua casca e lhe expor ao mundo fétido das coisas limpas. A vida que continua lá fora se apresenta como um rolo compressor para os que se isolam.
Desta vez demorou mais para a noite chegar, ela veio escorrendo do topo da tarde e quando encostou no chão os buldozers silenciaram, os homenzinhos pararam de falar, devem ter ido, levaram as conversas bobas para algum bar enfumaçado e cheirando a cachaça ou sentaram na frente de suas televisões.
Era a sua chance.
Ele não teve força para levantar. Sentia-se fraco, comer as próprias unhas pareceu-lhe uma boa fonte de alimento, afinal, além de parecerem couve-flores e elas atrapalhariam nos processos que viriam a seguir, de se arrastar e depois cavar.
Muito bem, se pretendiam lhe descascar da casa ele nasceria dali para algum lugar escuro. Iria embora com seu sofá que lhe serviria de caramujo. Balançou-se para frente e para trás a fim de emborcar o sofá sobre si e assim se arrastar como uma lesma no sal. Agora ele não sentava mais no sofá, o sofá é que era assentado nele. Arrastou-se pela sala em direção aos fundos da casa, sabia que lá tinha a fossa, o famoso poço negro, que um dia fervilhou de vermes digerindo bosta produzida a base de sanduíches de ovo cozido e maionese, depois de tanto tempo sem uso devia estar vazio, vazio de merda. Um bom lugar para um caramujo careca com suas unhas de couve-flor roídas. Enquanto se arrastava sentia o gosto verde das unhas de fungo, misturado com sangue preto e dentes podres. Cuspiu alguns dentes esfarelados que a falta de saliva não permitiu que engolisse. Passou pela porta, no primeiro degrau seu caracol sofá pesou, emborcando o encosto sobre a cabeça, isto estatelou a sua testa no segundo degrau. Daí foi fácil rolar mais um e cair sentado novamente sobre caramujo, já no pátio dos fundos. Queria agora poder olhar num espelho para ver o cérebro passa de uva que devia estar a mostra pela trepanação casual que o sofá e o terceiro degrau haviam lhe presenteado. Balançando o corpo grudado ao sofá caramujo, virou para frente sentindo o gosto da grama molhada e afundando a cara no chão. Daí para frente foi só cavar, cavar com as mãos, com a boca, cavar jogando a terra para trás, por cima dos pés do sofá caramujo colado nas costas. Mergulhou inteiro no buraco macio e quente, vazio de merda e vermes, agora cheio com uma colônia careca de fungos com seu sofá caramujo. O sol ainda não tinha nascido.
Enterrou-se para viver em paz.
Pelo menos até que resolvessem que deveria passar um metrô por ali, viveria tranqüilo em seu buraco.
Malditos engenheiros de tráfego.
Na manhã seguinte vieram os buldôzers de novo e junto deles os homens que cacarejavam. Nécios, ele já não os ouvia. Nem ouviu o barulho dos carros que passavam por cima de sua fossa. Tomara que o terreno ali não servisse para a construção de metrôs.




