Archive for the ‘ego’Category

A vida dos Outros

Mesmo tendo perdido o emprego há muito tempo saia de casa todos os dias com seu head-phone e ficava dançando soul-music no parapeito das pontes.
Saia de casa porque não queria que sua mulher notasse que agora era um desocupado.
Ana achava que uma das fraquezas do homem é não ter objetivos na vida, ele dançava no parapeito das pontes achando que levava alegria aos corações dos outros. Sua Mulher era uma mulher toda rija, baixinha e muito magra, era quase bonita, não fosse pela hirteza de sua expressão um pouco dura demais para uma mulher tão pequena, as sobrancelhas grossas e sempre semi cerradas no rosto ovalado mais fino embaixo, começava com os cabelos lisos castanho escuros e muito finos que iam até as orelhas, tinha olhos também castanhos e arredondados.
Ana resolveu abandoná-lo quando o viu dançando numa passarela, Sexual Healing, do Marvin Gaye era o que ele dançava. Não pensava nela naquela hora, ela parou um tempo lhe olhando, ele percebeu e ficou com vergonha, se olharam, ela não se preocupou em limpar uma lágrima e foi embora com passinhos curtos e rápidos, os cabelos balançavam para o lado oposto dos quadris de nádegas apertadas enquanto sumia. Acreditava estar levando alegria aos corações dançando assim, no entanto a maioria não se permitia alegrar, vomitava nele deboche, outros apenas odiavam sem entender.
Um dia ficou triste porque as rádios não tocavam mais soul music. Ia pular da passarela em frente à rodoviária, a mesma onde tinha visto Ana pela última vez, cabeça estraçalhada no pára-brisa do intermunicipal. O head-phone estatelou no asfalto antes dele, que ficou olhando a queda lá do parapeito estreito, lhe pareceu muito sem sentido pular lá de cima, achou inútil dar fim a sua vida, a pior forma de terminar uma história é antecipar o fim matando o personagem. Vivo, se tem mais chances de que algo aconteça, pensou. Seus ouvidos estavam se enchendo de música, o rádio estatelado se reduzia a pedaços cada vez menores sempre que algum carro passava por cima dos cacos e ele se sentiu feliz por não estar lá embaixo. Dançou mais uma vez no parapeito, mostrou seus melhores passos, seus movimentos mais sensuais suingando com a cintura prum lado e o tronco pro outro. No final daquela tarde notou que um casal que vinha caminhando parou para lhe olhar, ele seguiu dançando, controlando com o canto do olho, eles deram as mãos cruzaram o olhar e se beijaram abraçados, pareceram dançar um pouco também. Deu-lhe saudade da Ana, lembrou da época em que namoravam, lembrou da festa de casamento, das noites em que não liam, não ouviam música, não faziam nada além de se abraçar e foder com cobertores por cima quando estava frio ou embaixo do chuveiro frio no verão quente e úmido.
Aquele casal o havia visto! Tinha tocado duas pessoas, transformado o dia delas, a atenção que os dois dedicaram para ele, o beijo que trocaram também tiveram seus efeitos, eles também dançaram para ele, desceu do parapeito e caminhou pela passarela, pelo meio das pessoas, no centro da cidade, seguiu caminhando até a casa onde um dia morou com Ana.
A casa continuava lá, as luzes estavam acesas, Ana estava na sala, lendo perto da janela, ele não tocou na campainha, ficou apenas parado no portão, olhando para Ana que bebia um chá, lia e comia um chocolate aos pouquinhos. As vezes coçava a orelha, as vezes soltava o livro para esfregar as duas mãos, uma contra a outra rapidinho, como quem quer esquentar as palmas, daí comia um quadradinho do chocolate e depois tomava outro gole de chá. Ana costumava fazer isto com as mãos quando estava com frio ou quando se excitava com alguma coisa. Ele ficou por muito tempo lá olhando e as vezes secando alguma lágrima que escorria enquanto esperava que algo acontecesse.
Eles nunca tinham conversado sobre o final da sua vida juntos, ela nunca lhe falou o que sofria vendo seu amor se afastar e se fechar numa fantasia de dar amor aos quatro ventos sem olhar para si e para ela que tanto precisava de carinho, sua companheira, seu amor abandonado por uma ilusão de um amor universal. Ele nunca tinha entendido também que era concentrando nela que ele conseguiria espalhar para o mundo o que desejava. Agora isto era muito claro.
Ficou ali no portão até que ela o visse, se olharam um tempo pelo vidro, ela compreendeu do que se tratava, abriu a porta e caminhou até a varanda, demonstrando que ele deveria entrar e que era bem vindo. De dentro da casa vinha uma música de Marvin Gaye, ela lhe estendeu a mão tirando-o para dançar, ela conduziu os passos, ele se deixou sentir feliz, do outro lado da rua um casal parara de discutir para vê-los dançando, dançavam uma dança nova, dançaram ainda por muito tempo, as vezes resgatando algum passo antigo, as vezes deixando de fazer alguns que não haviam funcionado e ah! que felicidade ficavam quando inventavam algum passo novo. E isso sempre passava como uma benção para os que tinham a sorte de assistir.

23

07 2010

Satisfação

É difícil de lembrar da ordem de alguns acontecimentos.
Ela gritou e ele atirou? A batida seca e depois a travada? Ou teria sido ao contrário?
Era difícil pra ele saber se havia pensado algo e por isto tal coisa estava acontecendo novamente ou se sempre que isto acontecia liberava o processo torrencial de pensamentos aparentemente desconexos, mas totalmente encadeados que agora ejaculavam de fora pra dentro da cabeça dele.
Expectativa e temor –Os pensamentos têm um barulho estranho, em várias camadas de sonoridade. Tente imaginar o barulho que tem os fenômenos e as coisas que existem. O barulho de uma rocha, ali, só existindo. O barulho daquela parte que fica bem no meio das coisas, o cerne de uma montanha, o barulho dos uns e zeros.
Aquele barulhão que fazem os estetoscópios, o repercussor de um estetoscópio prensado entre a parte interna do cotovelo e o estignamômetro, o estrondo do sangue ali passando. Sangue surdo e estrondoso.
É assim que a expectativa soa enquanto ele sua.
Em pequenas províncias, costuma acontecer de artistas não terem seu trabalho devidamente reconhecido pelos conterrâneos que apenas o reconhecem como pessoa física. Justamente por isso.
Guitarristas virtuose, não passam de pudlles amestrados. Imagino que a cabeça lhes doa enquanto tentam desesperadamente encaixar suas circenses evoluções de notas, música tem que ter mulher cantando deprimida ou emocionada e homem cantando brabo tem que ter refrão pode até ter solo, mas a gente não pode notar.
A professora do pré primário, a maldita tia da escolinha uma vez o repreendeu porque ele demorou muito pra lavar o rosto, cadela intrometida.
Porque os infelizes dos cobradores de ônibus fazem aquela cara e empurram a roleta enquanto a gente está passando? Se eu fosse taxista perguntaria se a pessoa quer ouvir a estação de rádio que eu estou ouvindo ao invés de aumentar o volume depois de saber do itinerário. Porque em alguns ônibus tem um balde de água com uma esponja dentro?
Até aqui é o que passa na cabeça dele a partir do exato momento em que ela começa e termina de lhe dizer o preço, menos de um segundo.
Estes pensamentos não são sempre nesta ordem, nem desta forma linear, eles explodem em forma de golfada, é como uma orquestra completa, cada um dos instrumentos com seu timbre perfeitamente audível e distinto, todos tocando juntos, sem partitura, sem harmonia, sem nada além do vibrar, soprar e bater quase erótico dos pensamentos.
Ele tira a carteira do bolso, as mãos tremem um pouco, um movimento da mandíbula pode ser notado, como se algo fosse repuxado atrás das orelhas e uma gota começa a escorrer da testa já meio reluzente de suor gordurento e nervoso de pura expectativa pelo prazer final.
Ele não tem, com clareza, os sentidos despertos enquanto conta o dinheiro para pagar a moça, grandes olhos, os cabelos bem cuidados, os cílios aumentados pela maquiagem, um sorriso fácil e aquele sorriso de falsa intimidade e carinho comprado. Ainda bem que ganha dinheiro suficiente para pagar por estas coisas.
Entrega o dinheiro com o resto do mundo inteiro desfocado, já nem lhe interessa mais manter a pose ou a cara de pessoa normal, o queixo cai um pouco entreabrindo os lábios e colocando a mostra a língua que agora exposta faria qualquer um pensar que não cabe naquela boca, o brilho da saliva quase pingando transforma o conjunto de dois lábios, os dentes e a língua num espetáculo meio patético, coroado pelos olhos estalados, fixos e secos, literalmente comendo aquele momento.
Ao soltar as notas enquanto a moça as pega, conta e põe na gaveta ele quase desmaia, estende a mão para pegar a sacola enquanto ela diz o que ele está ali para ouvir:
- o senhor encontrou tudo o que queria?
-Sss-ii- sziimm – é o que ele consegue dizer enquanto os olhos reviram, um suave tremor lhe percorre a espinha e ele sente a mancha quente e úmida se espalhar pelas coxas.
Enquanto ela assina com chave de ouro em um grand finale para ele:
- obrigado por escolher nossa loja senhor, tenha uma boa noite. E mudando a expressão já com o olhar na pessoa atrás dele que acaba de se materializar juntamente com o resto do mundo
- boa noite, pode passar aqui senhora…
Mesmo usando calças folgadas e escuras as vezes dá pra notar a mancha quando ele deixa uma loja de departamentos, feliz, satisfeito, com uma sacola grande cheia de roupas numa mão enquanto a outra apalpa o bolso do casaco surrado em busca de um cigarro.

23

07 2010

A Morte do Anão do Caralho Grande.

Tom – O MENINO SEM BORDÃO

É assim ó, o ócio me deixa inquieto, pensei em porque não me aventurar numa COL-aboração mais extensa? Então taí. Depois desta homenagem ao Plínio marcos tem ainda um poeminha que escrevi nos idos de 80-e-poucos que encontrei dia desses.

Abraços pimpolhos, não fumem boleta, nem tomem maconha, boleta é de tomar e maconha é que se fuma, se não souber como fazer tem uns caras ali na rua da praia que vendem uns cachimbinhos que chamam de marica, é mais fácil e não queima os dedos.

A Morte do Autor de Teatro do Caralho Grande!

Subo e desço barrancos cheios de lixo, quando eu começo a ficar em dúvida quanto ao que estou fazendo ali chego ao topo de um morro de onde consigo ver uma praia. A vista é bonita, um tanto sombria. A praia tem um fundo de pedra e o nível do mar está muito baixo. Por conta disso tem muitos navios encalhados.

Me aproximo de uma casa onde quem me recebe é o Plínio Marcos a quem eu agradeço de forma muito educada por me receber para uma entrevista, ele me responde que não há o que agradecer, já que o jornal para o qual trabalhamos está pagando por nossa estadia. A casa é grande e sei que a própria esposa do Plínio está preparando o jantar  e as nossas acomodações, o que me deixa entre o constrangido e o a vontade.

Nos sentamos, Plínio, eu e alguns amigos dele (aqueles tipos intelectualizados, todos com mais de 40, meio gordos, sem a menor preocupação no vestir, usando chinelos de dedo), em cadeiras de praia olhando para o mar. Comentamos como o nível do mar está baixo, o que nos permite ver dezenas de navios encalhados e enferrujados. Era muito impressionante o pedaço do fundo do mar que podíamos ver, era de pedra, dava a impressão de ser pedra porosa de uma cor areia esverdeada. Aponto para um navio cheio de pedras e comento como os donos desse haviam sido espertos, pois apesar de encalhado ele poderia virar e estragar com as ondas, assim quando o mar voltasse ao seu nível normal era só tirar as pedras, fazendo o navio flutuar novamente.

Faço então a entrevista, com perguntas muito inteligentes, o que me deixa muito orgulhoso. Em seguida somos interrompidos por um barulho causado por uma máquina imensa e de forma futurista que vem pela beira da praia, literalmente limando o chão de pedras. A máquina tem três discos como de uma serra circular que são usados para “comer” as pedras. Faço uma grande pantomima com gestos teatrais e gritaria debochando da máquina, chamando de Mad Max do Governo. Termino fazendo reverências para a máquina o que causa risos e aplausos entre os intelectuais e o Plínio, que dá gargalhadas segurando aquele seu cetro com uma cruz. O motorista do monstro sai e nos explica como a máquina funciona (pena que não me lembro das perguntas que fiz ao Plínio).

Esta foi minha segunda experiência com Plínio Marcos, em 1996 na 42ª Feira do Livro de Porto Alegre, ele tinha vindo com a sua mulher pra dar umas palestras e autografar os seus “livrinhos” como gostava de chamar, livros de edição independente, que pretendia vender numa, “mesinha dessas de classe escolar”como nos pediu quando entrou na banca de autógrafos, eu era o responsável pela produção da barraca junto com a Jaqueline Couto, esta sim produtora de verdade eu tava lá só pelo dinheiro e pela peruagem. Lá fui eu buscar a mesinha antevendo o rolo que daria, pois o pessoal da Câmara Rio-Grandense do livro havia nos especificado que na barraca de autógrafos não se vendia nada! Claro que ele já sabia, havia falado na sua palestra que não confiava em editora e que elas não gostavam dele, sei que venho voltando com a tal da mesinha encontro a Jaque no meio do caminho entre o divertida e apavorada, “Tom, o Plínio Marcos ta botando a boca no pessoal, em todomundo, não tão querendo deixar ele vender os livros, ele ta puto, chamando a organização de autoritária só porque ele não vendeu a alma pruma editora etc, me desabalei pra ver, quando cheguei lá já tava tudo calmo, a esposa dele já tinha começado a vender os livros na porta da barraca, a mulher da Câmara já havia desaparecido, ele e a mulher tomaram um café atrás do outro, que eu buscava com o maior prazer, ela fumou uma carteira inteira de Hollywood, muito simpática conversando conosco que estávamos ali de prolétas, sendo simpático com os fãs, chatos, interessados e fazendo o maior olho branco pra gentalha da alta roda. Adorei. Adorei um cetro de cano preto que ele usava com uma cruz na ponta, adorei os chinelos de dedo, adorei ele botando a boca na organização da feira dizendo que só quem tinha tratado ele bem eram os funcionários do escalão mais baixo, eu e a Jaque. Adorei.

Depois vim a conhecer a ótima Caros Amigos da Editora Casa Amarela onde Plínio escreveu, contou histórias falou que era Tarólogo abriu a boca quando uma ilustre paulistana não conseguiu dizer: “E o premiado é: O Assassinato do Anão de Caralho Grande” numa solenidade. Livro que ele prometia na sessão de autógrafos no saguão do Teatro Sérgio Cardoso, mesmo lugar do velório com bandeira do Jabaquara F.C. sobre o caixão e coroa de flores dos “Amigos do Lovely Bar” que fica no Bexiga ocupando um espaço melhor do que a coroa de prefeitos políticos e “otoridades”que em outra épocas proibiam suas montagens,  que ardam no inferno de óleo fervente.

Plínio Marcos era uma figura única, teatral, daqueles que confunde sua vida e obra, validando uma com a postura da outra.

Pelo que sei estavam para publicar suas obras completas, talvez como repercussão do Navalha na Carne com a Vera Fisher, filme ruim, metido… mas a história excelente, agora com a morte saem os livros com certeza, eu preferia ele vivo, indo no Roda Viva da TVE de camiseta rosa bebê com a gola esgaçada e rasgada coçando o meio dos dedos dos pés mas dizendo barbaridades maravilhosas, ficamos no aguarde. Estou triste, o tamanho médio do nosso pau diminui com a morte do teatrólogo de caralho grande. A impermanência as vezes me é muito impertinente.

Ó O POEMA, SE CHAMA

Mandela’S Põem!!!

Viva Mandela

Que né nada branquela

Liberdade pros negro

De falar não tenho medo

Viva Nelson Mandela

Quené nada branquela

Vivas também aos bichos

Com pelo, pata e rabicho

Viva Nelson Mandela

Que não é de meia tijela

Viva ainda todas as raças

A preta a branca e a amarela

O poema deve ser de 1986 mais ou menos.

Porque não vou tomar a vacina da H1N1

Pessoa no msn diz: qual o teu problema com a vacina?
Tom diz:
não gosto que o governo tente introduzir coisas em mim
muito menos na forma de agulhas
acredito em conspirações da indústria farmacêutica
sei que posso evitar gripe se não engolir perdigotos alheios e lavar as mãos
Simples assim. Sou comuna dazantiga.

O bar do Nani

Fica na descida para a Borges de Medeiros, vindo pela Duque. Reduto de desenhistas, cartunistas, pessoal do rock e do blues e bêbados em geral.

Quando o clima permite tem mesas na rua, pra comer é servido o que tem no dia, hj era choripan aberto e pipoca, digno. A cerveja é gelada e o vinho da casa no limite do aceitável. Mas hj além de não querer beber, desde que saí de casa, percebi e fui avisado de que a polícia e os azuizinhos estavam em chamas pelas ruas, munidos de lanternas, bafômetros e muita disposição. Fiquei na coca zero, depois tomei uma coca gorda pra fazer algo radical. :)

Fazendo diferente. É os cavêra mano.

A coisa anda assim

Onde foi mesmo que eu parei? Nem Lembro.

Tava perdido na área51, lugar estranho, cheio de pratileiras, armários, corredores, sotãos e porões. A gente se perde fácil, um lugar destes é um mundo em si.

Depois tropecei e turbilhei por orçamentos, mirabotrampos, desencontros, trabalhos de escravo hercúleo e mal entendidos emocionais familiares e da existência no âmbito social - dependendo da intenção no compreender o bagulho pode ser MAU  entendido também.

Bom, daí teve a obra do escritório o twitter, o trabalho apertou e vai chegar a feira de cutelaria.

Lógico que antes, agora no meio e depois tiveram, estão tendo *  e terão momentos de alegria, puro amor e total fruição.

As usual.

Mas ninguém quer saber da história feliz e conformada de um mangolão de quase 40, melhor bancar o escrotinho pra que pelo menos, enquanto vou a ida  seja divertida.

Caos, paranóia,correria e prostração?

Nah.

Contemplação e atenção.

Bem vinda ao meu mundo baby.

Se ofendeu com as boas vindas no feminino? qué pena con usted. To mesmo com as posições de boyfriend ocupadas, espera alguém morrer ou desencana.

*Censurado pelo comitê #antigerundistadocaralho

\o/ Viva a @lulacolossal\o/

O caroço da azeitona

No meio dos anos 80 o gorducho Tom andava pela Otávio Rocha, centro de Porto Alegre, esbaforido à passos curtos e rápidos, tentando acompanhar o ritmo desabalado da caminhada do Rodrigo, devia ser outono ou primavera, mesmo que não fosse, passeios com o Rodrigo são armazenados em finais de tarde destas duas estações.

Vamos tomar um cafezinho na Haiti.

Não conheço a Haiti.

Sério?

Arrã… Devo me sentir culpado por isto? Desculpas. (Sempre me senti culpado.)

Não, tudo bem, sempre é tempo, vamos ali, é quase na esquina da Dr. Flores, um dos melhores e mais tradicionais cafés da cidade.

Rodrigo sempre sabe onde e quais são os melhores e mais tradicionais e mais legais.

Me apresentou, além do café da Haiti, Jack Kerouak, o disco da Carla Blay Band com Freddie Hubbard, Moebius, Jim Jarmush…enfim, um tipo de amigo e professor de arte.

Tomamos o café de pé, no balcão, naquela época se podia fumar nos lugares, o balcão de inox tinha uns cinzeirinhos fixados por dobradiças na borda, tinha que ir no caixa, pegar uma ficha pro cafezinho e depois ficar no balcão, tamborilando a fichinha até que uma atendente na corrida te tirava a ficha das mãos e colocava na tua frente um cafezinho numa xícara escaldada.

Tudo isto, menos os cinzeiros, ainda existe e funciona do mesmo jeito.

No início dos 90 fui estudar no centro, num colégio de segundo grau onde ninguém rodava, era isto o que eu precisava na época.

Foi aí que descobri a parte de dentro da Haiti e depois de provar um por um dos lanches, sanduíches e doces elegi a empada como minha favorita.

Entrava direto pro lado direito da lancheria, que fica perto do balcão aquecido onde moram os salgados e dá pra ver a cozinha onde  preparam comidas e bebidas que são entregues por uma janela pra balconista que traz teu lanche.

Se a bebida for refri, ela é pegada de geladeiras que tem em toda a extensão do balcão que serpenteia a grande sala da lancheria.

Daí pra frente meu pedido lá passou a ser: “uma taça de café preto e uma empada por favor”

A empada é O SEGUINTE: massa folhada crocante, muito fina, tremendamente gordurosa mas sem ser agressiva e com um recheio meio avermelhado com frango desfiado e duas coisas que fazem, ou faziam desta empada especial, um pedaço de ovo cozido, na minha análise 1/8 de um ovo partido longitudinalmente e uma azeitona inteira COM CAROÇO.

A empada vem quente num pratinho de inox, com duas folhas de guardanapo de papel que já chegam lustrosas na tua frente, as duas primeiras mordidas podem queimar a boca e são basicamente de crocância e massismo, depois disto o recheio quente e pegajoso na medida certa toma conta da boca.

A mordida em que vem um pedaço do ovo é sublime, o ovo foi cozido, partido e colocado dentro da empada que foi assada, isto dá uma textura mais resistente à superfície do ovo que já estava prontoe foi novamente cozido, desta vez dentro da empada.

Neste momento é hora de começar a tomar cuidado, porque a azeitona pode aparecer à qualquer momento, também quente, escondida entre o ovo e o molho, prometendo uma explosão de suco salgado e oleosidade verde, finalizada pela experiência do caroço que pode pegar os incautos de surpresa e até quebrar um dente.

Nas primeiras vezes que comi terminava mordendo a azeitona e tomando um tranco com o caroço, mas isto nunca me fez desistir da empada.

Voltava lá e pedia sempre a mesma coisa, cheguei a ver gente comendo sanduiches de salame italiano, coxinhas de galinha, canjas e cremes, doces, enfim, tudo era ótimo, mas eu tinha um encontro com a folheosidade, o ovo e a azeitona.

Esta semana me peguei de bobeira centro e fui comer uma empada na Haiti,  passei na roleta que divide o balcão do cafezinho em pé e a lancheria, entrei no salão serpenteado pelo outro balcão, este com bancos por fora e geladeiras por dentro, escolhi um banco vazio no lado da direita de quem entra e a atendente chegou.

Uma empada e uma taça de café preto por favor.

Vejo ela se afastar, pedir o café na cozinha, pegar o pratinho de inox, passar na estufa onde moram os salgados, pegar uma empada, passar no balcão da cozinha, pegar a xícara de café na outra mão e vir até o meu lugar, na direita do salão.

Tudo certo até aqui. Ela deposita o lanche na minha frente.

Açúcar ou adoçante?

Nada, obrigado.

Tudo conforme o esperado enquanto observo os dois guardanapos já transparentes da gordura que impiedosamente sugam da empada, guardanapos malditos, esta gordura é minha, retiro os guardanapos e ponho do lado, perto da xícara.

Lanches se come com as mãos, sujando os dedos e a boca, daí no final usa-se o guardanapo pra limpar as mãos, o Rodrigo me ensinou isto também quando me levou a primeira vez no Trianon.

De volta pra empada,tudo ótimo, tudo perfeito, tudo como sempre, as duas primeiras mordidas só na massa, a temperatura, o molho, lá pela terceira ou quarta mordida o ovo, depois dele apareceu a azeitona, veio um pedacinho dela e ao olhar pro pedaço de empada na minha mão dava pra ver o resto da azeitona lá, segui comendo e terminei a empada com uma decepção mortal sobre mim.

A globalização, a maximização da modernidade, alguma maldita reengenharia ou simplesmente algum idiota substituiu a azeitona da minha empada por uma azeitona sem caroço, sem personalidade, sem alma, sem trancasso nos dentes.

Fiquei tão puto que não perguntei pra balconista se eu que dei azar e peguei uma empada com azeitona sem caroço ou se esta é a regra lá agora.

Não comerei mais empadas na Haiti por um tempo.

Minha próxima incursão será ao balcão do cafezinho, mesmo sem cinzeiro, mesmo com a praga dos expressos, mesmo que a fichinha de plástico tenha sido substituída por uma notinha amarelada do lado escrito e branca no verso.

Sei que quando a gente envelhece é preciso aceitar e conviver com a evolução e a modernidade, mas pelo amor do Buda, pra que mexer no caroço da azeitona das pessoas?

Triste isto.

\o/ SALVEM a @lulacolossal \o/

26

06 2009

Dos tipos que se vê 2

É impressão minha ou homens da minha idade são mais idiotas do que o normal entre os homens?

Mais idiotas, mais infantis e mais irresponsáveis do que deveriam ser.

A turma que nasceu antes dos anos 60 tem um outro tipo de idiotice, que consiste numa vontadede se acomodar, de arranjar um emprego público, ou fazer um concurso pro Banco do Brasil e “se ajeitar na vida” esta postura meio que camuflou a idiotice masculina já que lhes permitiu constituir família, ter renda e parecer respeitável e produtivo, mas sabemos que é muito fácil  parecer produtivo numa repartição pública ou numa coorporação bancária.

Agora, a turminha que nasceu depois de 60 e até o final dos 70 é de doer, a grande maioria um bando de bebês babões, presos na saia da mamãe, filhos do milagre econômico que aprenderam com  os pais que não precisava estudar muito pra se dar bem, já que o projeto era fazer um concurso público lá pelas tantas e conquistar a sonhada ESTABILIDADE NO EMPREGO, só que quando a geração dos mangolões chegou na adolescência o mundo tinha mudado.

POW. Caiu a ditadura, a estabilidade no emprego já não era tão estável, as estatais já não eram tão estatais, a forma de se trabalhar mudou, já não basta mais ter um emprego pra ganhar dinheiro, é preciso FAZER alguma coisa, tem que produzir, os paradigmas do trabalho mudaram.

Mudaram as relações também, as mulheres deixaram de ser mulheres e passaram a ser pessoas, as bixaloucas foram desaparecendo pra dar lugar aos gays, e os mangolões seguiram sendo mangolões. Bem verdade que com os EMO tudo isto mudou novamente e confesso que prefiro não entender.

A gurizada bem nova, dos 90 pra cá é sensacional, isto me deixa mais tranquilo, eles vão cuidar de nós quando estivermos decrépitos, estou ansioso pelas análises antropológicas sobre a geração de retardados da qual faço parte, alguma coisa aconteceu na  época do milagre econômico ou pouco antes disto e abatumou a fornada, sinceramente, como ululo em meio a turba é difícil pra mim entender, mas que tem algo errado tem.

Tenho amigos mais velhos do que eu, tenho amigos mais novos do que eu, mas revisando com cuidado me dei conta de que tenho muito poucos amigos entre os 35 e os 40, liguei este fato à constatação que lhes relatei acima e tudo começa a fazer sentido.

Agora vou ali, esvaziar minha vontade de escrever no Twitter e hackear algum site sobre teoria da conspiração e perseguição paranóide.

AVE MEQUETREFE!!

Salvem a @lulacolossal

14

06 2009

Prazo de validade

De 2005 pra cá tenho ido a velórios demais pro meu gosto, a verdade é que depois dos 30 já deu tempo de a gente ter conhecido muita gente, e mesmo que os meus amigos tenham idades parecidas com a minha, todos eles tem pais, mães, tios e avós mais velhos, daí, naturalmente, o prazo de validade destas pessoas vai vencendo e como deveria ocorrer, eles morrem.

Exceções à esta regra é que são doloridas, inesperadas e é impossível que não achemos uma sacanagem isto, que uma vez vi um GuruNerd, brilhantemente, chamar de “o sorteio da alegria”. Tô aqui fazendo referência à morte da mãe uns anos atrás, que descobriu um câncer no cérebro alguns meses depois de se aposentar e à morte da K. naquele acidente da Tam em SP. As duas caíram no sorteio da alegria, prematuramente, nos deixaram aqui com as expectativas que tínhamos pro nosso futuro com elas, com as lembranças do que elas diziam que IAM fazer, dos planos e projetos que nunca serão concretizados. Pelo menos não com a participação delas.

Mesmo que os ensinamentos sobre a impermanência, que a compreensão de que tudo, eu disse TUDO acaba, estejam verdadeiramente enraizados nos meus miolos lesados é impossível não sofrer de saudades e não se perder em reflexões sobre que o nosso próprio fim. Como diz o ditado gaudério: “a côsa é ôsca e vem d’iácavalo”

No entanto, que diferença faz, no final, conseguirmos ou não levar a cabo nossos planos e realizar nossos anseios antes de morrermos? Até aqui chegamos, nascemos vazius de anseios, zerados de vontades e enquanto crescemos vamos criando necessidades, alimentando vontades e construindo personagens para nós mesmos, estas personagens  nos consomem e nos escravizam, tornando cruciais coisas invariavelmente impermanentes e na maioria das vezes irrelevantes.

Torrei a paciência, este texto está ficando meloso, brega e óbvio. Além do que todo mundo já entendeu do que estou falando, quem não entendeu deve ser novo demais, idiota demais ou não deveria estar lendo isto.

Vou direto pra moral, do alto dos meus 37 anos recem completados.

Melhor não dar bola pra porcarias,  não obsessionar em coisas que vão terminar te paralisando e  impedindo de DESFRUTARES as pequenas coisas do dia a  dia.

O ideal seria conseguir ligar uma espécie de “foda-se responsável” e viver na paz e realizando coisas legais, pra si, pros convivas e quem conseguir contemplar os OUTROS,  por tabela, ainda acumula algumas estrelinhas douradas no caderninho de apontar méritos.

Ando com umas dores de cabeça estranhas e qualquer resolução ou projeto muito extenso pro futuro pode terminar abruptamente interrompido, espero que seja apenas o óculos vencido e não o apoteótico prenúncio do sorteio da alegria.

Por via das dúvidas semana que vem vou no médico.

Boa noite pimpolhos, sejam felizes.

29

03 2009

Hipocrisia, estupidez generalizada, *”o prazer de decepcionar” e a decepção gerada pela expectativa.

Não necessariamente nesta ordem.

Começo prometendo que JAMAIS anunciarei o próximo post, mantenho blog desde 2000 com grandes lapsos na sua frequencia atualizatória, mas os maiores hiatos ocorreram SEMPRE, eu disse S E M P R E  que no final de um post tinha: “prometo atualizar isto aqui com mais regularidade” ou: “no próximo post falarei sobre xxxx”.

Isto quase aconteceu semana passada quando tentei engatar uma série de posts sobre a hipocrisia humana, logo depois de publicar o primeiro, passei uma semana sem nem abrir o blog por causa da maldita promessa, pensava num assunto, tinha vontade de escrever sobre tal coisa, daí lembrava da maldição CRAVADA na última linha do post anterior e desistia.

Prometer coisas e desistir de cumprir é uma merda, a pessoa que SOFREU  a promessa naturalmente fica decepcionada, mas o pior mesmo acontece na cabeça de quem promete, lógico que se o prometedor for um psicopata idiota ele termina nem ligando, mas no caso de gente neurótica como eu isto vira um fator paralizante e vou me sentindo cada vez pior, cada vez menor, cada vez mais infeliz, culpado e desgraçado. Até agora equacionei tres soluções pra este problema:

1 – não prometer mais nada

2 – violentar ou passar por cima da coisa que me impede de fazer a porcaria que eu prometi e me livrar do encargo

3 – ligar o foda-se e simplesmente desistir da promessa

Quem põe expectativas nos outros, transformando uma vontade SUA numa promessa ALHEIA e contando com o cumprimento disto tem mais é que SE FODER  mesmo.

Ando especialmente intolerante e adotando padrões cada vez mais cruéis de auto avaliação e é óbvio, isto faz com que me pareçam preguiçosas, idiotas e estúpidas as pessoas que se permitem viver imersas na comodidade, ignorância e na auto condescendência.

Enfim, ia falar sobre isto mas desisti, perdi a paciência e a vontade.

Assim como perdi a vontade de falar sobre a hipocrisia, este negócio de envelhecer expõe de uma forma muito evidente as hipocrisias dos convivas.

Não acredito que ao agir de forma hipócrita alguém tenha a intenção, ou mesmo acredite que está enganando aos outros, no máximo está criando no outro uma atitude hipócrita em contrapartida, como um espelho, porque no meu caso pelo menos, eu to ali, vendo o imbecil SE FAZER  e ME FAÇO de volta, fingindo que não estou vendo a falsidade e a enganação e sendo falso e enganador. No final todos ficam infelizes e geram mais infelicidade pra si e pro outro.

É um ciclo infinito e que só pode levar pra algum inferno específico, já que se eu percebo que meu interlocutor quer me iludir e tendo iludir ele fingindo que não percebo, ele logicamente deve perceber que estou fingindo e finge que não está percebendo.

Agora eu deveria escrever mais um parágrafo curto, bem pontuado e com português correto conduzindo o post para o final, mas não sei como concluir esta série de asuntos do post de hoje e a dislexia e o distúrbio de atenção me impedem de escrever corretamente, encerro com um simples ERA ISTO.

Espero que você não tenha se identificado com isto, nem pro bem nem pro mal.

Seja feliz.

* O Prazer de Decepcionar é o nome de um livro de Eduardo Fernandes que eu nunca li, mas o nome é ótimo e talvez eu tivesse chegado nesta expressão sem me valer da referência ao Eduf, mas já que usei é legal dar o crédito.

27

03 2009