No meio dos anos 80 o gorducho Tom andava pela Otávio Rocha, centro de Porto Alegre, esbaforido à passos curtos e rápidos, tentando acompanhar o ritmo desabalado da caminhada do Rodrigo, devia ser outono ou primavera, mesmo que não fosse, passeios com o Rodrigo são armazenados em finais de tarde destas duas estações.
Vamos tomar um cafezinho na Haiti.
Não conheço a Haiti.
Sério?
Arrã… Devo me sentir culpado por isto? Desculpas. (Sempre me senti culpado.)
Não, tudo bem, sempre é tempo, vamos ali, é quase na esquina da Dr. Flores, um dos melhores e mais tradicionais cafés da cidade.
Rodrigo sempre sabe onde e quais são os melhores e mais tradicionais e mais legais.
Me apresentou, além do café da Haiti, Jack Kerouak, o disco da Carla Blay Band com Freddie Hubbard, Moebius, Jim Jarmush…enfim, um tipo de amigo e professor de arte.
Tomamos o café de pé, no balcão, naquela época se podia fumar nos lugares, o balcão de inox tinha uns cinzeirinhos fixados por dobradiças na borda, tinha que ir no caixa, pegar uma ficha pro cafezinho e depois ficar no balcão, tamborilando a fichinha até que uma atendente na corrida te tirava a ficha das mãos e colocava na tua frente um cafezinho numa xícara escaldada.
Tudo isto, menos os cinzeiros, ainda existe e funciona do mesmo jeito.
No início dos 90 fui estudar no centro, num colégio de segundo grau onde ninguém rodava, era isto o que eu precisava na época.
Foi aí que descobri a parte de dentro da Haiti e depois de provar um por um dos lanches, sanduíches e doces elegi a empada como minha favorita.
Entrava direto pro lado direito da lancheria, que fica perto do balcão aquecido onde moram os salgados e dá pra ver a cozinha onde preparam comidas e bebidas que são entregues por uma janela pra balconista que traz teu lanche.
Se a bebida for refri, ela é pegada de geladeiras que tem em toda a extensão do balcão que serpenteia a grande sala da lancheria.
Daí pra frente meu pedido lá passou a ser: “uma taça de café preto e uma empada por favor”
A empada é O SEGUINTE: massa folhada crocante, muito fina, tremendamente gordurosa mas sem ser agressiva e com um recheio meio avermelhado com frango desfiado e duas coisas que fazem, ou faziam desta empada especial, um pedaço de ovo cozido, na minha análise 1/8 de um ovo partido longitudinalmente e uma azeitona inteira COM CAROÇO.
A empada vem quente num pratinho de inox, com duas folhas de guardanapo de papel que já chegam lustrosas na tua frente, as duas primeiras mordidas podem queimar a boca e são basicamente de crocância e massismo, depois disto o recheio quente e pegajoso na medida certa toma conta da boca.
A mordida em que vem um pedaço do ovo é sublime, o ovo foi cozido, partido e colocado dentro da empada que foi assada, isto dá uma textura mais resistente à superfície do ovo que já estava prontoe foi novamente cozido, desta vez dentro da empada.
Neste momento é hora de começar a tomar cuidado, porque a azeitona pode aparecer à qualquer momento, também quente, escondida entre o ovo e o molho, prometendo uma explosão de suco salgado e oleosidade verde, finalizada pela experiência do caroço que pode pegar os incautos de surpresa e até quebrar um dente.
Nas primeiras vezes que comi terminava mordendo a azeitona e tomando um tranco com o caroço, mas isto nunca me fez desistir da empada.
Voltava lá e pedia sempre a mesma coisa, cheguei a ver gente comendo sanduiches de salame italiano, coxinhas de galinha, canjas e cremes, doces, enfim, tudo era ótimo, mas eu tinha um encontro com a folheosidade, o ovo e a azeitona.
Esta semana me peguei de bobeira centro e fui comer uma empada na Haiti, passei na roleta que divide o balcão do cafezinho em pé e a lancheria, entrei no salão serpenteado pelo outro balcão, este com bancos por fora e geladeiras por dentro, escolhi um banco vazio no lado da direita de quem entra e a atendente chegou.
Uma empada e uma taça de café preto por favor.
Vejo ela se afastar, pedir o café na cozinha, pegar o pratinho de inox, passar na estufa onde moram os salgados, pegar uma empada, passar no balcão da cozinha, pegar a xícara de café na outra mão e vir até o meu lugar, na direita do salão.
Tudo certo até aqui. Ela deposita o lanche na minha frente.
Açúcar ou adoçante?
Nada, obrigado.
Tudo conforme o esperado enquanto observo os dois guardanapos já transparentes da gordura que impiedosamente sugam da empada, guardanapos malditos, esta gordura é minha, retiro os guardanapos e ponho do lado, perto da xícara.
Lanches se come com as mãos, sujando os dedos e a boca, daí no final usa-se o guardanapo pra limpar as mãos, o Rodrigo me ensinou isto também quando me levou a primeira vez no Trianon.
De volta pra empada,tudo ótimo, tudo perfeito, tudo como sempre, as duas primeiras mordidas só na massa, a temperatura, o molho, lá pela terceira ou quarta mordida o ovo, depois dele apareceu a azeitona, veio um pedacinho dela e ao olhar pro pedaço de empada na minha mão dava pra ver o resto da azeitona lá, segui comendo e terminei a empada com uma decepção mortal sobre mim.
A globalização, a maximização da modernidade, alguma maldita reengenharia ou simplesmente algum idiota substituiu a azeitona da minha empada por uma azeitona sem caroço, sem personalidade, sem alma, sem trancasso nos dentes.
Fiquei tão puto que não perguntei pra balconista se eu que dei azar e peguei uma empada com azeitona sem caroço ou se esta é a regra lá agora.
Não comerei mais empadas na Haiti por um tempo.
Minha próxima incursão será ao balcão do cafezinho, mesmo sem cinzeiro, mesmo com a praga dos expressos, mesmo que a fichinha de plástico tenha sido substituída por uma notinha amarelada do lado escrito e branca no verso.
Sei que quando a gente envelhece é preciso aceitar e conviver com a evolução e a modernidade, mas pelo amor do Buda, pra que mexer no caroço da azeitona das pessoas?
Triste isto.
\o/ SALVEM a @lulacolossal \o/